Literatura: Cristovam Buarque (wikipedia)
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Nós e nós A Esperança e a doação Fome de esquerda Libertação dos Ricos Paz e Lutas
Portal do Prof. Fernando Buarque, DIC, PhD
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Paz e Lutas (Artigo publicado no Jornal do Commercio em 28/12/2007) Os índios Aymara, que habitam há séculos as margens do lago Titicaca, nos Andes, defendem a necessidade de sete diferentes tipos de paz. A primeira é para dentro de si. Consigo próprio, na saúde do corpo, na lucidez da mente, no prazer do seu trabalho, na correspondência dos seus amores. Sem paz consigo, você não está em paz. A segunda é para cima. Com os espíritos de seus antepassados, com a vontade de Deus. Se você não está em paz com o mundo sobrenatural, espiritual, com a metafísica da sua existência, sua paz fica incompleta. A terceira paz é para frente, com seu passado. A arrogante cultura ocidental põe o passado para trás. Já os Aymara põem o passado à frente, porque ele é o conhecido, o visto, o vivido. Se você tem remorsos, dívidas não pagas, culpas, arrependimentos, não está totalmente em paz. A quarta é para trás, com seu futuro. Quem tem medo do que virá, está assustado com dívidas a pagar, com o emprego incerto, esperando más notícias, não está em paz. A quinta é para o lado esquerdo, com seus próximos. Sem a paz familiar, não há paz. A disputa doméstica, o descontentamento com familiares e amigos próximos tira o sentimento de paz. A sexta paz é para o lado direito, com seus vizinhos. Não adianta a paz em casa se, do outro lado da rua, estão a ameaça, a maldição, o descontentamento. A última paz é para baixo, com a terra em que você pisa, de onde virá seu sustento. Se vier tempestade, se o solo secar ou tremer, não haverá paz completa. Para cada leitor, eu desejo esses sete tipos de paz, com base na sabedoria dos Aymara. Mas desejo também que, além das sete formas de paz, você tenha planos para construí-las. Das sete, cinco dependem apenas de você e sua família, de sua introspecção, sua espiritualidade, suas amizades. Mas duas, para a direita e para baixo, dependem de sua ação social e política. Dependem de luta. No mundo global de hoje, os vizinhos são todos os seres humanos, começando por seus conterrâneos nacionais. Para nós, brasileiros do século XXI, nossos vizinhos são 185 milhões de compatriotas. A paz de cada brasileiro depende do bem-estar de cada outro brasileiro, sem fome nem violência. Por isso, se queremos a paz completa, temos de agir para alcançá-la. A paz no seu lado direito não estará completa enquanto todos os brasileiros não tiverem a mesma chance na vida. O caminho é lutar, em 2008, para que o Brasil comece sua revolução por uma escola igual para todos. Da mesma forma, é preciso colocar nos seus planos para 2008 a luta pela proteção da natureza, o início da revolução por um desenvolvimento sustentável. Sem isso, você não terá paz para baixo, com a mãe Terra. Nem vai garantir a mesma chance entre gerações, deixando os próximos brasileiros sem acesso ao mesmo patrimônio natural. Esses dois planos de luta para 2008 são necessários para que você tenha paz com a Terra e com a humanidade. Sem elas, você também não terá as outras cinco formas de paz. É impossível ter paz com Deus tendo crianças sem escola, ou destruindo a Amazônia. Como não ter remorso sabendo que já perdemos cinco séculos de história? Como ter paz com o futuro, sabendo que estamos despedaçando nosso país e o mundo? E como ter paz com a família, quando filhos e netos perguntarem o que você fez para evitar a tragédia?
Desejo-lhe sete tipos de paz neste Natal, e que, em 2008, você lute para ter
direito a eles. Feliz Natal, Próspero 2008, sete formas de paz para você. E
muita participação para construí-las. Porque a paz não acontece, ela é
construída. [Voltar para o topo desta página]
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Libertação dos Ricos (Artigo publicado no jornal O Globo em 15/10/2005) No
final do século XIX, o Brasil aboliu o sistema escravocrata. Neste início de
século XXI, é preciso libertar os ricos da prisão de ouro em que vivem. Para
fazer esta nova abolição, é preciso completar a primeira. [Voltar para o topo desta página]
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(Artigo publicado
no Jornal do Commercio do dia 23/09/2005) |
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A Esperança e a doação (Artigo publicado
no Jornal do Commercio do dia 05/08/2005) Graças à sua biografia e à história do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva teve a rara chance de ser o presidente capaz de pedir aos ricos que doassem e aos pobres que esperassem. Sua credibilidade entre a população pobre lhe dava o direito de pedir paciência nas mudanças. E a força com que chegou lhe permitia cobrar dos ricos que aceitassem as mudanças. Mas a chance foi perdida. Aos pobres, a oferta foi de administrar melhor e de forma assistencial os programas antigos; aos ricos, de manter os privilégios intactos. Foi uma chance perdida sobretudo pela história do Brasil. Dificilmente teremos um momento histórico mais favorável e um presidente mais habilitado para promover um encontro de diversas classes para construir a Nação.
Lamentavelmente, um fator
impediu que isso acontecesse: Lula e o PT nunca explicitaram um projeto de
Nação. Partido e líder se formaram a partir de uma visão corporativa que
divide o país em pedaços, a serem atendidos separadamente. Nunca
perceberam que a Nação é um ente diferente de uma soma de suas partes, e
que nos momentos de crise é preciso reorientar o destino nacional com um
projeto transformador. Essa é a diferença entre a Bolsa-Escola e a Bolsa
Família. A primeira ajuda a reorientar o destino nacional pela educação, a
outra ajuda no presente as famílias que a recebem.
Pena que Lula e a equipe que ele manteve ao
seu redor não conseguiram ver o Brasil na sua totalidade, nem perceberam
seu papel de reorientar o destino nacional. Não tinham um cenário de para
onde queriam e poderiam levar o País; não quiseram ou não souberam pedir
paciência aos pobres nem doação aos beneficiados pela política fiscal e
orçamentária. Ao contrário, pediram que o povo comemorasse a pequena
esmola dos programas assistenciais, e comemoraram com os ricos as
vantagens não perdidas, ao contrário do que se dizia durante as eleições. Não podia dar certo, e assim alertaram várias pessoas, diversas vezes, algumas do próprio governo, mas fora do núcleo central. Os escândalos de corrupção são parte de um jogo de política superficial, retratam a arrogância do publicitário que passa a acreditar na veracidade da publicidade que faz.
O pior é que toda vez que surgiram
problemas, causados pelo descompasso entre realidade e imagem, chamaram o
marqueteiro para ajustar a imagem, em vez de mudarem a realidade de erros
e omissões do governo. [Voltar para o topo desta página]
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(Artigo publicado no
Jornal do Commercio do dia 12/08/2005)
Nós, brasileiros do século XXI, herdamos uma grande quantidade de nós que
amarram nossa caminhada. Dentro de algumas décadas, quando a história
destes dias for estudada, vai parecer que o futuro do Brasil estava
amarrado por apenas dois nós: a taxa de juros elevada e a corrupção
desenfreada. É como se o nosso futuro não estivesse preso a uma longa
corda de nós que impedem que o Brasil, independente há quase duzentos
anos, se transforme em nação. [Voltar para o topo desta página]
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