Para onde a
neurociência deve nos levar nos próximos anos?
No curto prazo, penso que as principais aplicações serão na medicina com
novos métodos de reabilitação neurológica, para tratar condições como
paralisia. No médio, chegarão as aplicações computacionais. Nossa
relação com as máquinas será completamente diferente: não usaremos mais
teclados, monitores, mouse… o computador convencional deixará de
existir. Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos
diretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator
limitante da nossa ação no mundo. Nossa mente poderá atuar com máquinas
que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas
ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no
espaço entre duas células para corrigir um defeito. E, no longuíssimo
prazo, a evolução humana vai se acelerar. Nosso cérebro roubará um pouco
o controle que os genes têm hoje. Daqui a três meses, publicarei um
livro em que comento estes temas.
O que você chama de curto, médio, longo e longuíssimo prazo?
Curto prazo são os próximos anos. Médio prazo, nas próximas duas
décadas. Longo prazo, no próximo século. Longuíssimo prazo, alguns
milhares de anos.
Como andam suas linhas de pesquisa na medicina?
Estamos avançando rapidamente no exoesqueleto (um dispositivo que dá
sustentação ao corpo de uma pessoa paralisada e é capaz de mover-se
obedecendo ao controle da mente). Está sendo desenvolvido na Alemanha.
Para o treinamento dos pacientes, construímos salas virtuais onde
pessoas paralisadas terão sua atividade cerebral registrada de forma
não-invasiva por magneto-encefalógrafos. Vamos ver se elas aprendem a
controlar com o pensamento os movimentos de um corpo virtual – um avatar
que simula o exoesqueleto. Com uma pessoa tetraplégica será mais fácil,
pois é justificável o uso de métodos invasivos como implantar os
eletrodos dois milímetros e meio dentro do cérebro. As descobertas
vitais já foram feitas. Nosso drama agora é engenharia e conseguir
recursos para pagar um projeto que é o equivalente, na neurociência, a
uma viagem à Lua. Outra linha de pesquisa importante em medicina é
Parkinson. No ano passado, publicamos um trabalho na Science.
Estimulamos com eletricidade a medula espinhal de ratos com Parkinson e
conseguimos reverter o congelamento motor característico da doença. Há
um milhão de fibras na medula espinhal que sobem para o cérebro.
Mandamos uma descarga de alta frequência que chega aos centros motores
profundos do cérebro e faz com que eles saiam da sincronia absoluta
característica da doença, pois estão todos disparando impulsos nervosos
ao mesmo tempo, de um modo semelhante ao que ocorre em uma crise
epiléptica. O sinal elétrico tem um efeito caótico que quebra a crise.
Também temos resultados preliminares em macacos obtidos aqui em Natal.
Infelizmente, o Hospital Sírio-Libanês não quer continuar a parceria com
nosso instituto. Por isso, procuramos outro hospital de grande porte,
público ou privado, onde possamos realizar os testes clínicos, talvez já
no próximo ano. Gostaria muito de marcar que a tradução dessa pesquisa
para a prática clínica aconteceu aqui no Brasil, pois acredito que a
Medicina brasileira é a melhor do mundo. Estou propondo uma nova teoria
que vai provavelmente acabar com minha carreira (risos). Acredito que
não há distinção entre doenças neurológicas e psiquiátricas: todas elas
são doenças temporais, relacionadas ao tempo dos neurônios, ou seja,
variantes epilépticas. A única doença do cérebro que existe realmente
seria uma epilepsia. Já publicamos três trabalhos este ano com modelos
de doenças ditas psiquiátricas e, em todas, encontramos uma assinatura
temporal que permite classificá-las como distúrbios do tempo,
epilépticos. A ideia surgiu quando vi os registros eletrofisiológicos de
ratos com Parkinson e eles lembraram muito os registros de uma crise
epiléptica central que conheci quando era estudante.
No médio prazo, ainda precisaremos dos nossos sentidos para dialogar
com sistemas computacionais?
Em breve, vamos publicar um trabalho descrevendo o envio do sinal de uma
máquina diretamente ao tecido neural de um animal, sem mediação dos
sentidos: na prática, criamos um sexto sentido. Vai ser uma novidade
explosiva, mas não posso dar mais detalhes, pois o artigo ainda não foi
publicado. A internet como conhecemos vai desaparecer. Teremos uma
verdadeira rede cerebral. A comunicação não será mediada pela linguagem,
que deixará de ser o principal canal de comunicação. Para entender isso,
basta pensar que toda linguagem é um comportamento motor – como mexer o
braço. Esse comportamento motor também poderá ser decodificado e
transmitido. Grandes empresas – como Google, Intel, Microsoft – já tem
suas divisões de interface cérebro-máquina.
Quais as implicações antropológicas e sociológicas no longo prazo?
Talvez o primeiro impacto será descobrir que somos todos muito
parecidos: as pretensas diferenças entre grupos de seres humanos vão se
reduzir pois todos perceberão que somos iguais. Costumo dizer que será a
verdadeira libertação da mente do corpo, porque será ela quem
determinará nosso alcance e potencial de ação na natureza. O corpo
permanecerá para manter a mente viva, mas não precisará atuar
fisicamente. Nossa mente cria as ferramentas e as absorve como extensão
do nosso corpo. Agora, a mente vai controlar diretamente as ferramentas.
O que definimos como ser mudará drasticamente no próximo século.
De que modo a evolução poderá ser influenciada pelo cérebro?
O processo de seleção natural vai agir de uma forma muito mais rápida.
Em um mundo onde as pessoas terão de atuar com a atenção dividida entre
múltiplas ferramentas, os atributos evolucionais necessários para
sobreviver mudam. A mente que consegue controlar vários processos de
forma eficaz tem uma vantagem evolucional sobre as outras. Há uma base
genética para essa facilidade. À medida que gente com essa vantagem se
reproduz mais que os outros, ocorre seleção. Várias pessoas – como os
biólogos evolucionistas Richard Dawkins e Stephen Jay Gould – previram
que o cérebro passaria a ter um papel mais fundamental na evolução. Mas
creio que estamos acelerando este papel. Os neandertais acordaram um dia
e encontraram o Homo sapiens jogando bola na esquina da casa deles. Um
dia, um sujeito pode acordar e se dar conta de que ele já não pertence
mais à espécie dos pais. Mas estamos falando de milênios aqui.
Sua abordagem para criar uma interface cérebro-maquina foi listada
pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês)
como uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. Como ela surgiu?
Nós – eu e o neurocientista John Chapin – elaboramos um experimento para
contestar a doutrina neuronal dominante no século 20 – que rendeu vários
prêmios Nobel. Esta teoria estabelecia o neurônio como unidade funcional
do sistema nervoso. Nós provamos que a unidade funcional é uma população
de células. Um neurônio isolado – que sozinho constitui, de fato, uma
unidade anatômica e computacional – não consegue reunir informação
suficiente para gerar comportamento, principal função do cérebro. No fim
da década de 80, tivemos a ideia de ligar um cérebro de rato a um robô
para mostrar que mesmo o neurônio mais fenomenal não gera movimento.
Mas, quando registrávamos populações de cinquenta neurônios – mesmo
escolhendo-os de forma aleatória -, o animal conseguia movimentar o
braço mecânico como se fosse o seu próprio. Não esperávamos um impacto
tão grande. Construímos o primeiro centro de neuroengenharia do mundo na
Universidade Duke. Agora, qualquer oficina de fundo de quintal nos
Estados Unidos tem um centro de neuroengenharia. Há uma explosão de
iniciativas no mundo inteiro: Japão, Suíça, Brasil…
Quais os principais desafios para aprimorar essa tecnologia?
Conseguimos registrar hoje cerca de 600 neurônios. Nos próximos dois
anos, vamos chegar a 60 mil graças a uma inovadora tecnologia de
eletrodos tridimensionais. De qualquer forma, é um método invasivo, o
que restringe seu uso. Ninguém vai inserir eletrodos no cérebro para
brincar com jogos na internet. Precisamos descobrir técnicas
não-invasivas, mas que tenham a mesma resolução para registrar os
neurônios.
O que é “registrar neurônios”?
Colocamos eletrodos no cérebro e registramos a atividade elétrica dos
neurônios. Se você colocar os dados obtidos pelos eletrodos em uma tela
de computador, não vai entender nada. É como olhar um programa binário
de computador. Há uma mensagem codificada ali, mas com um código que
está mudando continuamente, pois o cérebro é um sistema auto-adaptativo:
cada vez que você faz alguma coisa, ele muda. Precisávamos descobrir um
modo de extrair a informação motora dessas salvas de eletricidade que
são, na realidade, padrões espaço-temporais que variam com o tempo. De
início, parecia ruído… em boa medida, porque é mesmo ruído Poisson, como
costumamos chamar. Mas percebemos que, com métodos de regressão linear,
conseguíamos obter a informação. A partir daí, deixamos o próprio
cérebro atuar como nosso computador: ele resolvia o sistema de equações
lineares e encontrava um equilíbrio ótimo que aproveitávamos para
estabelecer a interface.
O que você acha da política científica brasileira?
Está ultrapassada. Principalmente, a gestão científica. Foi por isso que
eu escrevi o Manifesto da Ciência Tropical (mais informações nesta
página). O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é
rapidamente sufocado por normas absurdas dentro das universidades. Não
podemos mais fazer pesquisa de forma amadora. Devemos ter uma carreira
para pesquisadores em tempo integral e oferecer um suporte
administrativo profissional aos cientistas. Visitei um dos melhores
institutos de física do País, na Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), e o pessoal não tem suporte nenhum. Se um americano do Instituto
de Física da Universidade Duke visitar os pesquisadores brasileiros, não
vai acreditar. Eles tomam conta do auditório, fazem os cheques e compram
as coisas, porque não é permitido ter gestores científicos com formação
específica para este trabalho. Nós preferimos tirar cientistas que
despontaram da academia. Aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na
carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),
do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma tragédia. Esses caras
não tem formação para administrar nada. Nem a casa deles. Não temos
quadros de gestores. A gente gasta muito dinheiro e presta muita atenção
em besteira e não investe naquilo que é fundamental.
Qual é a diferença nos mecanismos de financiamento e gestão
científica nos EUA e no Brasil?
O investimento privado e público americano – sem contar os gastos do
Pentágono que, em parte, são sigilosos – é equiparável: cerca de US$ 250
bilhões anuais cada um (o equivalente a R$ 425 bilhões). Eles também
enfrentam o problema de que as empresas privadas não costumam investir
em pesquisa pura, meio de cultura de onde saem as ideias aplicadas.
Contudo, o governo não investe só em universidades. Ele também coloca
dinheiro em empresas e em institutos de pesquisa privados. Este é o
segredo. No Brasil, a grande maioria dos mecanismos públicos de
financiamento está voltado para universidades públicas. Sendo assim,
você não contrata cientistas e técnicos para um projeto, pois depende
dos quadros da universidade. Mas esses quadros estão dando 300 horas de
aula por semestre. Não dá para competir com um chinês que está em
Berkeley pesquisando o dia inteiro e recebendo milhões de dólares para
contratar quem ele quiser. Como fazer ciência sem gente? Na realidade,
os americanos não contam com pessoas mais capazes lá. O que eles têm de
diferente é um número muito maior de pesquisadores, processos
eficientes, gestão científica profissional – a melhor jamais inventada –
e dinheiro. Nos Estados Unidos, sou visto como um pequeno empreendedor.
Recebo dinheiro do governo americano e uma parcela menor de investimento
privado. Tenho assim uma “padaria” que faz ciência: posso contratar o
padeiro, o faxineiro e a atendente de acordo com as necessidades do
projeto. Esse empreendedorismo não é permitido pelas leis brasileiras.
As mesmas regras que regem o gasto de quaisquer dez mil réis que um
cientista ganha do governo federal servem para controlar licitações de
centenas de milhões de reais para a construção de estradas,
hidrelétricas… Achar que um cientista vai desviar dinheiro para fazer
fortuna pessoal é absurdo. O processo de financiamento deve ser mais
aberto, com mecanismos simples de auditoria. Além disso, deveria ser
mais fácil importar insumos e, com o tempo, precisaríamos atrair
empresas para produzi-los aqui. É um absurdo ver anticorpos apodrecerem
no aeroporto de Guarulhos por causa da burocracia. Alguém no topo da
pirâmide – o presidente da República ou o ministro da Ciência e
Tecnologia – precisa dizer: “Chega. Acabou a brincadeira.” É um
desperdício gigantesco de talento e de dinheiro. A China está
recuperando pesquisadores que emigraram para os EUA oferecendo condições
de trabalho ainda melhores que as americanas. Milhares de brasileiros
voltariam ao Brasil se tivessem melhores condições para trabalhar. Mas o
sujeito vem para uma universidade federal e é obrigado a dar 300 horas
de aula por semestre. Perdemos o talento. Além disso, ele conquista a
estabilidade de forma quase automática. Que motivação vai ter para
crescer? Há talentos, mas os processos são medievais. E o cientista
brasileiro tem muito receito de bater de frente com as autoridades para
reivindicar o que ele realmente precisa.
Quanto o Brasil deveria investir em ciência?
O Brasil precisa investir de 4% a 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB)
em ciência e tecnologia para encarar a China, a Índia, a Rússia, os
Estados Unidos, a Coreia do Sul… esses são os jogadores com quem devemos
nos equiparar. É o mesmo porcentual que já investimos em educação. É
essencial realizar os dois investimentos: por um lado, para formar gente
e iniciar a revolução educacional que o País precisa; por outro, para
usar o potencial intelectual dessas pessoas na produção de algo para o
País. Atualmente, investimos 1,3% do PIB. No Japão, é quase 4%. Isso
explica muita coisa.
Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada
no País.
Sem dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a
penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são
índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira.
Essa foi uma das razões que me motivaram a escrever o manifesto. Até bem
pouco tempo, a ciência era uma atividade da aristocracia brasileira. Há
30 ou 40 anos só a classe mais alta tinha acesso à universidade. Não
precisavam de financiamento porque tinham dinheiro próprio. Hoje, nós
precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem.
Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam
ter acesso à educação científica, à iniciação científica. O que também
implica uma democratização na distribuição de oportunidades e recursos
em todo o País. Estamos trabalhando com 21 crianças da periferia de
Natal. Elas nem mesmo entraram no ensino médio e já estão sendo
incorporadas às linhas de produção de ciência do nosso instituto. Quatro
participaram de um projeto piloto em que aprenderam a usar ressonância
nuclear magnética de bancada para medir o volume de óleo nas sementes do
pinhão-manso do semi-árido nordestino. E classificaram as diferentes
sementes de acordo com a quantidade de óleo. Duvido que exista algum
técnico na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) melhor
do que essas crianças. Não precisamos mais de caciques. Precisamos de
índios. Devemos investir na massificação dos talentos. Esses moleques
vão decidir o que vai ser a nossa ciência. Se chega um jovem muito
talentoso que quer investigar besouro, devemos responder: “Está bom,
filho. Vai pesquisar besouro.” Eu não investiria em tópicos, em áreas
específicas. Eu investiria primordialmente em gente. Porque se você
investir em pessoas talentosas, elas encontrarão nichos em que o Brasil
terá benefícios tremendos. Nós temos uma das maiores olimpíadas de
matemática do mundo, o que comprova que nosso talento matemático é
enorme. Mas não dá frutos porque faltam caminhos, oportunidades,
veículos… Acreditamos que devemos escolher o melhor menino. Mas e os
outros cem mil que quase ganharam? Precisam de incentivo para continuar.
Por isso, eu proponho o bolsa-ciência. É um bolsa-família para garoto
que tem talento científico. Não precisa ser gênio. Estou fazendo isso
com esses 21 meninos. Os quatro garotos do pinhão-manso recebem mais
dinheiro do que o pai e a mãe: uma bolsa de R$ 520 paga por doadores
privados. Precisamos investir no caos que é o sistema nervoso. Desta
forma, encontraremos caminhos imprevistos, surpresas agradáveis.
Como avaliar mérito na academia?
Nós publicamos mais do que a Suíça. Mas o impacto da ciência suíça é
muito maior. Basta ver o número de prêmios Nobel lá. E eles têm apenas
cinco milhões de habitantes. Na academia brasileira, as recompensas
dependem do que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto
mais pesado o currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa colecionar
o maior número de publicações – sem importar tanto seu conteúdo. Não
pode ser assim. O mérito tem de ser julgado pelo impacto nacional ou
internacional de uma pesquisa. Não podemos dizer: quem publica mais,
leva o bolo. Porque aí o sujeito começa a publicar em qualquer revista.
Não é difícil. A publicação científica é um negócio como qualquer outro.
Mesmo se você considerar as revistas de maior impacto. Também não
adianta criar e usar um índice numérico de citações (que mede o número
de citações dos artigos de um determinado cientista). Talento não está
no número de citações: é imponderável. Meu departamento na Universidade
Duke nunca pediu meu índice de citação. Também nunca calculei. Quando
sai do Brasil, achei que estava deixando um mundo de lordes da ciência.
Fui perguntando nome por nome lá fora. Ninguém conhecia. Ninguém sabia
quem era. Críamos uma bolha provinciana que deve ser estourada agora se
o Brasil quer dar um salto quântico. Mas as pessoas têm receio de falar
com medo de perder o financiamento. Há outras formas de medir o impacto
científico: ver o que cara está fazendo e consultar a opinião de pessoas
que importam no mundo, dos líderes de cada área. Sob este ponto de
vista, o impacto da ciência brasileira é muito baixo. E precisamos dizer
isso sem medo. Não dá para esconder o sol com a peneira. Quando decidem
criar um Instituto Nacional (de Ciência e Tecnologia), em vez de dividir
o dinheiro entre 30 ou 40 pesquisadores promissores, preferem pulverizar
o dinheiro entre 120 cientistas, muitos deles com propostas que não vão
chegar a lugar nenhum. Cada um recebe um R$ 1 milhão, uma quantia
considerável na opinião de muita gente mas que não paga nem a conta de
luz de um projeto bem feito. Não podemos ter receio de selecionar os
melhores. Você precisa escolher os bons jogadores, não os pernas-de-pau.
Outra coisa: só o Brasil ainda admite cientista por concurso público.
Cientista tem de ser admitido por mérito, por julgamento de pares, por
entrevista, por compromisso, por plano de trabalho.
Como você se vê na Academia?
Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado.
Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos
bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em
Natal nos últimos oito anos. Mas sobrevivemos. O Brasil é uma obsessão
para mim. Há muita gente que não faz e não quer que ninguém faça, pois o
status quo está bem. Tenho excelentes amigos na academia do País,
respeito profundamente a ciência brasileira. Sou cria de um dos
fundadores da neurociência no Brasil, o professor César Timo-Iaria, e
neto científico de um prêmio Nobel argentino – Bernardo Alberto Houssay.
Por isso, foi uma triste surpresa os anticorpos que senti quando eu
voltei. Algumas pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão
pedindo permissão para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na
avaliação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs),
tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o
nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões.
Recebemos R$ 1,5 milhão. Operamos com um sexto do nosso orçamento. As
pessoas têm medo de abrir a boca, porque você é engolido pelos pares.
Então, eu fico imaginando um pesquisador que volta para o Brasil depois
de estudar lá fora. De qualquer forma, o pessoal precisa entender que
voltar para o Brasil é assumir um tipo especial de compromisso. Não é ir
para Harvard, Yale… Você deve estar disposto a dar seu quinhão para o
País porque ele ainda está em construção. Nem tudo vai funcionar como a
gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando para o Brasil. Os jovens
precisam olhar menos para o umbigo e mais para a sociedade.
Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no País?
Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro
porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da
academia para conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE,
cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do
CNPq, porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de
orientandos de mestrado, de doutorado… Se Einstein não poderia estar no
topo, há algo errado. Minha esperança é que o futuro ministro ataque
isso de frente pois, até agora, ninguém teve coragem de bater de frente
com o establishment da ciência brasileira. Ninguém teve coragem de
chegar lá e dizer: “Chega! Não é assim! A ciência não está devolvendo ao
povo brasileiro o investimento do povo na ciência.” Os cientistas
brilhantes jovens não têm acesso às benesses que os grandes cardeais –
pesquisadores A1 do CNPq – têm, muitos deles sem ter feito muita coisa
que valha. Além disso, veja a situação do Conselho Nacional de Ciência e
Tecnologia (CCT, que assessora o presidente da República nas decisões
relacionadas à política científica). O presidente da Academia Brasileira
de Ciências (ABC) – agora, um grande matemático – me perdoe, mas ele não
deveria ter cadeira cativa nesse conselho. O Brasil deveria ter um
conselho de gente que está fazendo ciência mundo afora. E não pessoas
que ocupam cargos burocráticos em associações de classe. Deveria ser
gente com impacto no mundo. E pessoas jovens com a cabeça aberta. Mas as
pessoas têm muita dificuldade de quebrar esses rituais. Para entender a
que me refiro, basta participar de reuniões científicas e acompanhar a
composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar nenhum do mundo:
perder três minutos anunciando autoridades e nomeando quem está na mesa.
É coisa de cartório português da Idade Média. Cientista é um cidadão
comum. Ele não tem de fazer toda essa firula para apresentar o que está
fazendo. É um desperdício de energia, uma pompa completamente
desnecessária. Muitas vezes, os pesquisadores jovens não podem abrir a
boca diante dos cientistas mais velhos. Eu ouço isso em todo o Brasil.
No meu departamento nos Estados Unidos, sou professor titular há quase
doze anos. Minha voz não vale mais que a de qualquer outro que acabou de
chegar. Qualquer um pode me interpelar a qualquer momento. Qualquer um
pode reclamar de qualquer coisa. Qualquer um pode fazer qualquer
pergunta. E ninguém me chama de professor Nicolelis. Meu nome lá é
Miguel. Por quê? Porque o cientista é algo comum na sociedade. O meu
estado (a Carolina do Norte) possui uma das maiores densidades de PhD na
população dos EUA. Se você se comportar como um pavão lá, vai se dar
mal. Todo mundo tem pelo menos um PhD. Aqui, precisamos colocar a
molecada da periferia de Natal, de Rio Branco e de Macapá na ABC, por
mérito. Às vezes, parece que existe uma igreja chamada Ciência no País.
Se você não é um membro certificado, ela é impenetrável. Minhas críticas
não são pessoais. Quero que o Brasil seja uma potência científica para o
bem da humanidade. As pessoas precisam ver que a juventude científica
brasileira está de mãos atadas. Precisamos libertar este povo. Já estou
no terço final da minha carreira científica. O que me resta é ajudar
essa molecada a fazer o melhor.
Você tem uma opinião bastante crítica sobre a política científica no
País. Mas, na eleição, manifestou apoio publicamente à Dilma. Por quê?
Porque a outra opção era trágica. Basta olhar para o Estado de São
Paulo: para a educação, a saúde e as universidades públicas. Não preciso
falar mais nada. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que
temos hoje na USP é terrível. O reitor da USP (João Grandino Rodas) é
uma pessoa de pouca visão. Não chega nem perto da tradição das pessoas
que passaram por aquele lugar. São Paulo acabou de perder um
investimento de 150 milhões de francos suíços (cerca de R$ 270 milhões)
porque o reitor da USP não tinha tempo para receber a delegação de mais
alto nível já enviada pelo governo suíço ao Brasil. Mandaram o
pró-reitor de pesquisa da universidade (Marco Antônio Zago) fazer uma
apresentação para eles. Ninguém agradeceu a visita. Manifestei
oficialmente ao professor Zago minha indignação como ex-aluno da USP. Um
dos integrantes da delegação suíça doou um super-computador de US$ 20
milhões de dólares (cerca de R$ 34 milhões) para nosso instituto em
Natal. Chegou na semana passada e será um dos mais velozes do Brasil.
Não pagamos um centavo. Não há mais espaço para provincianismo na
ciência mundial. Nas reuniões que eu presenciei com comitês e comissões
de outros países, a tônica da Fapesp sempre foi assim: “Fora de São
Paulo não existe ciência que valha a pena investir”. Esse tipo de coisa
é muito mal visto pelos estrangeiros. Não há mais lugar para
regionalismo, preconceito… É ótimo para São Paulo ser responsável por
70% da produção científica do País, mas é muito ruim para o País, que
precisa democratizar o acesso à ciência. Não adianta dizer em reuniões
com emissários internacionais que São Paulo tem uma “relação amistosa”
com o Brasil, este outro País fora das fronteiras do Estado. Este
bairrismo não ajuda em nada. A Fapesp é uma jóia, um ícone nacional,
reconhecida no mundo inteiro. Mas isso não quer dizer que as últimas
administrações foram boas. Temos de ser críticos. Esta última
administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp está perdendo
importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há algumas semanas
sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp. Que surpresas
você vê saindo da ciência de São Paulo? Acho que a matéria da Science
foi uma boa chamada para acordar, para sair dos louros, descer do salto
alto e ver o que podemos fazer com os R$ 500 milhões anuais da Fapesp.
Ah, se eu tivesse um orçamento assim! Temos muito menos e posso dizer
para o diretor-científico da Fapesp (Carlos Henrique de Brito Cruz) que
nós saímos na Science. E ele tem condição de investir nos melhores
centros de pesquisa do País.
Como você avalia o governo Lula?
Apoiei e apoio incondicionalmente o presidente Lula porque vivemos hoje
o melhor momento da história do País. A proposta global de inclusão do
governo Lula – e espero que será a mesma com a Dilma – é aquela que eu
acredito. Contudo, os detalhes devem ser corrigidos. Admiro
profundamente o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende.
Tivemos grandes avanços como a criação dos INCTs e dos fundos setoriais.
Mas o ministro não enfrentou a estrutura. Talvez não pudesse… por não
ter condições práticas ou por fazer parte dela, por ter crescido nela.
Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião no MCT ou para
apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros cientistas,
melhores do que eu, também não foram chamados. É curioso. Mas fui
chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o
melhor já tivemos na história da República. Ele criou a infraestrutura
que será lembrada daqui a 50 anos como a reviravolta da educação
brasileira. Com o Haddad eu consigo conversar e nossa parceria está
dando resultados.
O que você achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?
Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica.
Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima
ideia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência
brasileira – um ministério tão importante – virar prêmio de consolação
para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom
que o futuro ministro não seja um cientista de bancada, alguém ligado à
comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação política, poderá
quebrar os vícios. O primeiro ministro da Ciência e Tecnologia (Renato
Archer, que permaneceu no cargo de 1985 a 1987) não era cientista e foi
talvez um dos melhores gestores que já tivemos. Ele tinha consciência de
que seu ministério era estratégico. O MCT estabelece parcerias e tem
impacto na ação de outros ministérios: Educação, Saúde, Indústria e
Comércio, Relações Exteriores, Agricultura, Meio Ambiente… Hoje, boa
parte do orçamento do ministério não é nem executado. As agências de
financiamento não têm uma rotina de chamadas. Não podemos continuar como
está.
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